* Aviso: Esta publicação aborda questões relacionadas com o suicídio
- Está bem? Quer que verifiquemos a sua medicação?
- Não, obrigado. Estou bem assim
Marco não sabe quando foi o último dia em que disse a verdade a alguém. Responde em piloto automático “Estou bem, obrigado” sempre que lhe perguntam, mas a cada dia que passa sente-se pior. Está internado num hospital psiquiátrico no México há três meses por causa de uma tentativa de suicídio. A medicação que lhe foi receitada para a PHDA acalma um pouco os nervos, mas os pesadelos estão mais reais do que nunca – É um rapaz e está em casa, no norte do México. Ouvem-se gritos no quarto ao lado. Um copo estilhaça-se. Procura o pai com os olhos, mas não o encontra. Está sozinho e com frio. Uma lágrima começa a descer pela sua face e o pai diz: “pára de chorar”. O pai aparece apenas para o repreender pela sua dor. A mãe está num canto da sala de estar a ver a telenovela da noite, com os olhos vidrados e as lágrimas presas na garganta. “Pára de chorar”, pensa Marco, e nesse momento acorda.
Durante o dia, Marco pensa na sua situação. Estudou Negócios Internacionais e Engenharia de Sistemas, mas não conseguiu concluir nenhum dos cursos. Desde que emigrou da sua cidade natal, sente que não tem ninguém que se preocupe com ele e o incentive a continuar os seus estudos. “A liberdade é perigosa”, pensa, porque o confronta com os seus próprios medos. Também não consegue manter um emprego, e os seus amigos abandonaram-no enquanto caía num poço escuro do qual ninguém queria fazer parte. Voltou a sentir-se como quando era pequeno: triste e solitário, com a televisão da mãe ligada ao fundo como a banda sonora de uma vida que não valia a pena ser vivida. Tinha a sensação de que os outros eram bem-sucedidos, sabiam como agir em quase todas as situações ou problemas que apareciam e não investiam qualquer esforço nas tarefas da vida quotidiana. E para Marco, qualquer pequeno obstáculo era um desafio impossível de ultrapassar. Um enigma incompreensível. A sensação perpétua de que o mundo não foi feito para ele, embora tivesse tanto direito de o habitar como qualquer outra pessoa.
Mas o pior, talvez, foram os dias em que dormiu na rua. Quando chegou à região central do México, fugindo da violência da sua cidade natal e da sua família, Marco passou um mês a viver nas ruas. Não conhecia ninguém que lhe pudesse emprestar um abrigo temporário e voltar para a família não era uma opção. Tinha de procurar comida e enrolar-se em qualquer roupa que encontrasse na rua para sobreviver aos dias frios e chuvosos. Foi então que começou a pensar que nada fazia sentido e que o mundo exterior conspirava para o manter o mais longe possível da felicidade. Todas as outras pessoas tinham um plano, um propósito na vida e ele sentia que estava destruído. Esta sensação de vazio e inutilidade levou-o a uma tentativa de suicídio e ao seu internamento num hospital psiquiátrico.
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O Marco foi diagnosticado com PHDA quando era jovem, mas sempre sentiu que “faltava algo”. Anos mais tarde, recebeu o diagnóstico de autismo e viu que todas as peças começaram a encaixar. Reconciliou-se com a mãe, deixou um emprego insatisfatório, procurou um psicólogo especializado que o pudesse ajudar a conhecer-se melhor e a reconstruir a sua vida numa perspetiva mais amorosa, gentil e com maior amor próprio..
Marco acredita ainda que o seu testemunho pode servir para inspirar outras pessoas: “Muitas pessoas autistas passam por situações difíceis e, infelizmente, há muitas tentativas de suicídio porque não sabem quem são. Gostaria que, graças à minha experiência, outras pessoas se sentissem motivadas para procurar um diagnóstico”. Por fim, faz uma reflexão: “Penso que a visibilidade das neurodivergências e uma maior consciencialização do conceito de neurodiversidade salvariam muitas vidas. Agora estou feliz por estar vivo, porque o diagnóstico fez-me perceber que há outras saídas. E agora, aos 35 anos de idade, sinto que a minha vida está a começar”.
NOTA: se acha que precisa de ajuda devido a pensamentos suicidas ou risco de comportamento suicida, peça ajuda às pessoas que o rodeiam ou ligue para o número 112 do INEM
