Autismo no trabalho: Eu já o vivia antes de saber

abr 15, 2026

Escrito por: @Megan Pilatzke (she/her), Especialista em Inclusão, @Specialisterne Canada

Desde os 5 anos, quando comecei a ir à escola, já sabia que era diferente dos outros. Demoraria anos até perceber porquê.

Quando finalmente entrei no mercado de trabalho, no início dos meus 20 anos, comecei a ter dificuldades. Coisas que pareciam simples para os outros, como compreender expectativas, gerir feedback construtivo ou lidar com a comunicação, muitas vezes pareciam esmagadoras e pouco claras. Muitas vezes saía de conversas confusa em relação aos próximos passos ou sem perceber por que razão estava a receber determinado feedback.

Foi apenas a 19 de maio de 2021, aos 31 anos, que a minha vida mudou. Ser identificada como autista não mudou as minhas experiências, mas mudou a forma como as compreendia.

Por fora, parecia que estava tudo bem

O meu desempenho no trabalho parecia, muitas vezes, sólido. Era atenta ao detalhe, determinada e comprometida em fazer bem as coisas. Mas internamente a experiência era muito diferente.

Consumia muita energia a tentar interpretar expectativas que não eram claramente comunicadas. Regras não escritas, tais como a forma como devia comunicar, quando intervir (e quando ficar em silêncio) ou que tom usar, pareciam muitas vezes um jogo de adivinhas. Revivia conversas na minha cabeça repetidamente, preocupada por poder ter entendido algo mal ou dito a coisa errada. Lembro-me de manhãs em frente, ao espelho, a ensaiar conversas com o meu manager.

Ao mesmo tempo, exigia de mim própria padrões extremamente elevados, e ainda hoje o faço. Se algo corria mal, mesmo que ligeiramente, não via isso como um pequeno erro. Via-o como prova de que não era suficientemente boa para trabalhar. Isto era reforçado pelo feedback de managers, pela falta de oportunidades para crescer e desenvolver-me, e pela ausência de progressão na carreira, especialmente ao ver colegas, que começaram ao mesmo tempo que eu, a avançar nas suas carreiras. Esta pressão tornava difícil recuperar dos desafios e, com o tempo, tornou-se desgastante. 

Mas isto ia muito além de estar cansada após um longo dia de trabalho. No final de um dia de trabalho presencial das 9h às 17h, estava fisicamente, emocionalmente e cognitivamente exausta. Era um cansaço que nunca conseguia compreender nem antecipar. Não importava quanto dormia, quão saudável comia ou que exercícios fazia. Como consequência, surgiram a depressão e a ansiedade. Consultei vários profissionais de saúde, experimentei diferentes medicações, fiz exames e participei em terapia.

Ainda assim, nada mudou.

Com o passar do tempo, acabei por desenvolver um padrão de absentismo crónico.

O ponto de viragem: compreender-me de forma diferente

No início de 2020, entrei de baixa médica. Nessa altura, o manager já me tinha sugerido considerar a reforma por motivos de saúde.

Começava a acreditar que nunca iria conseguir trabalhar. Não via um caminho a seguir.

Mais tarde, nesse mesmo ano, comecei a aprender sobre o autismo, depois de ter conhecido recentemente o filho autista de uma amiga. Fiquei impressionada com as semelhanças entre nós. Depois de alguma leitura, comecei a colocar-me uma questão: “E se eu também for autista?”

Na altura, tinha um diagnóstico de perturbação bipolar, mas e se, na verdade, nunca tivesse sido bipolar?

Felizmente, consegui marcar uma avaliação de autismo e, seis meses depois, as minhas suspeitas confirmaram-se. A experiência de receber um diagnóstico na idade adulta é diferente para cada pessoa. No meu caso, esse dia continua a ser o melhor da minha vida. Foi como se um peso me tivesse sido retirado e todas as experiências de me sentir diferente fossem finalmente validadas. Ao mesmo tempo, percebi que, durante 31 anos, tinha vivido sem realmente saber quem era.

Descobrir que era autista deu-me um enquadramento para compreender experiências que, durante anos, não tinha conseguido explicar. Ao mesmo tempo, implicou repensar a forma como me via a mim própria. De repente, vários padrões começaram a fazer sentido. A minha sensibilidade ao ruído e a ambientes com muita estimulação. A minha necessidade de expectativas claras. A minha intensa capacidade de foco e atenção ao detalhe. Até as minhas respostas emocionais, que tantas vezes tinha julgado de forma dura, passaram a ter contexto.

Não se tratava de me rotular, mas de me compreender e, a partir daí, aceitar-me.

Uma das mudanças mais significativas foi perceber que não estava a “falhar” em coisas que outras pessoas achavam fáceis. Estava a mover-me em sistemas que não foram pensados para um cérebro como o meu. E essa distinção é importante. Quando os desafios são vistos como falhas pessoais, a resposta é tentar mais. Mas quando são entendidos como um desajuste entre a pessoa e o seu ambiente, a solução torna-se mais clara: ajustar o ambiente.

Essa mudança transformou a forma como passei a abordar o trabalho, a comunicação e até as expectativas que tinha sobre mim própria.

A perspetiva do local de trabalho: pequenas barreiras, grande impacto

 Em 2021, o mundo e a forma como trabalhávamos tinham mudado. Isto abriu novas oportunidades para muitas pessoas, incluindo eu própria, especialmente para quem tinha dificuldades em ambientes tradicionais de escritório aberto.

Pela primeira vez, vi um caminho possível que não passava pela reforma por motivos de saúde.

 Comecei a desempenhar funções a tempo inteiro na Specialisterne Canada em julho de 2023, depois de sair de um trabalho anterior que se recusou a fazer adaptações para mim. Desde então, tenho-me dedicado a falar em público, a formar profissionais de saúde sobre boas práticas no trabalho com pessoas autistas, a colaborar em grupos de trabalho focados na melhoria das experiências nos cuidados de saúde e no trabalho para pessoas autistas, e a publicar investigação académica sobre o autismo no contexto laboral.

Ao refletir sobre as minhas experiências profissionais anteriores, consigo agora vê-las de forma diferente. Muitos dos desafios que enfrentei não eram dramáticos nem evidentes. Eram subtis, mas constantes.

Instruções pouco claras obrigavam-me a preencher lacunas por conta própria, o que frequentemente gerava ansiedade sobre se estava a fazer as coisas “bem”. Feedback vago ou indireto deixava-me sem saber como melhorar. Ambientes de escritório movimentados e ruidosos dificultavam a concentração, mesmo quando estava altamente motivada.

À primeira vista, podem parecer pequenos inconvenientes. Mas, com o tempo, acumulam-se. Afetam a confiança, o desempenho e o bem-estar geral no trabalho.

E, mais importante ainda, nenhuma destas barreiras é exclusiva do autismo. Ouço falar destes mesmos desafios por parte de pessoas que não são autistas.

Além disso, muitas destas barreiras são fáceis de resolver.

Uma comunicação clara, expectativas explícitas, feedback estruturado e ambientes bem pensados beneficiam toda a gente, não apenas as pessoas autistas. Mas, para alguém como eu, podem fazer a diferença entre ter dificuldades e ter sucesso.

Entre trabalhar e não conseguir trabalhar de todo.

É aqui que as organizações têm uma oportunidade real. Não se trata de mudar tudo, mas de prestar atenção aos detalhes que moldam as experiências diárias de todos os colaboradores.

Porque é que a identificação tardia é importante e porque está a aumentar 

A minha experiência de ser identificada como autista na idade adulta é algo que tenho ouvido cada vez mais, tanto de colegas como de clientes e outras pessoas.

Historicamente, o autismo tem sido compreendido de forma limitada e frequentemente associado a determinados estereótipos. Muitas pessoas, especialmente mulheres e aquelas que desenvolveram fortes estratégias de adaptação, foram ignoradas. Adaptaram-se, mascararam e encontraram formas de navegar em ambientes que não as apoiavam plenamente.

Mas essa adaptação tem um custo. Com o tempo, pode levar ao esgotamento, à depressão, à ansiedade e à perda de confiança.

À medida que a consciência aumenta, mais pessoas começam a reconhecer-se nas descrições do autismo e a procurar respostas. A identificação tardia pode ser um processo emocional, pois implica reinterpretar experiências passadas, mas também pode ser capacitadora. Dá linguagem, contexto e um ponto de partida para a mudança.

Para os contextos de trabalho, esta mudança é importante.

Significa que é provável que existam colaboradores a enfrentar desafios semelhantes sem terem necessariamente um diagnóstico formal ou apoio. Criar ambientes que reduzam barreiras não exige que alguém o declare. Exige apenas intenção.

Avançar com consciência e aceitação

Partilhar a minha história não é sobre gerar pena, inspirar ou focar nas diferenças. É sobre ajudar locais de trabalho e organizações a compreender o impacto.

E a passar à ação de forma real, para além das palavras.

Quando os ambientes de trabalho são pensados com clareza, flexibilidade e acessibilidade, as pessoas conseguem contribuir melhor com as suas competências.

A minha experiência não mudou de um dia para o outro após a avaliação de autismo, mas a forma como a compreendia mudou. E com essa compreensão surgiu a capacidade de encarar o trabalho de forma diferente, com mais consciência, mais autocompaixão e estratégias mais claras.

Para as empresas, a ideia principal é simples: pequenas mudanças fazem diferença.

Ter expectativas claras, uma comunicação direta e ambientes bem pensados não só apoiam algumas pessoas; beneficiam toda a gente. À medida que mais pessoas começam a compreender-se a si próprias em fases mais tardias da vida, surge uma oportunidade de as acompanhar nesse processo. Não pedindo que se adaptem ao sistema, mas construindo sistemas que funcionem melhor para todos.

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