De que falamos quando falamos de deficiência?

dez 3, 2025

Durante muito tempo, a deficiência foi descrita como uma característica individual, quase uma etiqueta capaz de definir o que uma pessoa podia ou não podia fazer. Mas, nos anos das grandes mobilizações pelos direitos civis – quando se começavam a questionar as estruturas de poder e a reivindicar a participação plena na vida social – também muda a forma de pensar a deficiência. As pessoas com deficiência começam a organizar-se, a protestar, a exigir reconhecimento, acesso e uma vida como a de qualquer outra pessoa.

Neste clima toma forma uma nova perspetiva, que Michael Oliver desenvolverá plenamente no Reino Unido: o modelo social da deficiência. Trata-se de uma mudança profunda, porque desloca o centro do discurso. A deficiência já não é algo que está “na” pessoa, mas sim nas condições que encontra. Não é um defeito que deva ser corrigido, mas o resultado de barreiras culturais, físicas, sensoriais, organizativas e relacionais. Esta perspetiva de interação entre indivíduo e contexto é hoje reconhecida também pela Organização Mundial da Saúde, que define a deficiência como o resultado da interação entre as características pessoais e as barreiras presentes na sociedade.

Oliver introduz ainda uma distinção fundamental: fala de impairment para se referir a características individuais que podem ser problemáticas para a pessoa, mas que não são incapacitantes por si mesmas. O que “incapacita” uma pessoa com um impairment são as barreiras produzidas por uma sociedade construída em torno de um ideal de pessoa “normal”, isto é, conforme os padrões médios.

São essas barreiras que geram deficiência. Não o impairment em si.

E é aqui que tudo muda. Se a deficiência não é um problema individual, então podemos trabalhar sobre as barreiras para reduzir a deficiência que uma pessoa experiencia. Não se trata de “consertar” ninguém, mas de construir uma sociedade capaz de acolher todas as pessoas.

Outra consideração importante, à luz desta interpretação, é que nenhuma pessoa é realmente autónoma. As sociedades complexas existem porque somos interdependentes, porque vivemos em relação com os outros. Isto aplica-se a todas as pessoas, também àquelas que não são consideradas deficientes. No entanto, quando a interdependência envolve alguém com deficiência, tendemos a interpretá-la como um limite ou um problema. Na realidade, é apenas uma questão cultural que podemos aprender a desconstruir.

E nas empresas?

Significa que todas as pessoas têm um papel na redução da deficiência. Podemos atuar sobre as barreiras, inclusive sobre aquelas que muitas vezes passam despercebidas: processos concebidos para um “trabalhador médio” que não existe, ambientes físicos ou sensoriais inacessíveis, expectativas implícitas, modos de comunicação que excluem em vez de acolher.

A propósito do 3 de dezembro, ouvi muitas vezes: “Prefiro não falar de deficiência porque é uma palavra negativa”. Hoje podemos tentar inverter esse significado. A palavra “deficiência” não assinala algo negativo na pessoa; é negativa para a sociedade quando esta não garante acesso, participação e autodeterminação.

E isto envolve-nos a tod@s. Temos uma responsabilidade partilhada: construir contextos onde cada pessoa possa crescer profissionalmente, desenvolver competências, alcançar independência económica e contribuir para o desenvolvimento da empresa e de toda a sociedade.

Hoje celebramos um poder que muitas vezes esquecemos: o poder de contribuir para um ambiente de trabalho capaz de valorizar cada talento. Um ambiente que sabe questionar os seus hábitos e crescer na complexidade e na diversidade das características humanas.

Tudo isto é possível apenas se o direito à autodeterminação e à autorrepresentação estiver garantido para todas as pessoas, eliminando as barreiras juntamente com quem as encontra todos os dias. Não para elas, mas com elas.

Deste gesto nasce um tipo de inclusão que vai além da prática empresarial. Torna-se uma forma de convivência consciente, capaz de mostrar como as barreiras não só dificultam o acesso ao trabalho, como também impedem dirigentes, colegas e clientes de descobrir quão transformadora pode ser a colaboração na diversidade.

Comprometer-se com a acessibilidade não é idealismo abstrato. É aquilo que permite às organizações inovar, ouvir as necessidades reais das pessoas e responder melhor às aspirações tanto de quem trabalha como de quem utiliza os seus serviços.

Num dia como este, podemos recordar que cada barreira eliminada abre espaço para mais alguém, também para nós.

Na Specialisterne trabalhamos todos os dias para eliminar barreiras e criar as condições para que também as pessoas neurodivergentes possam contribuir, crescer profissionalmente e encontrar no trabalho um espaço real de autodeterminação.

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