A minha vida sempre esteve orientada através do som, seja isso bom ou mau, desde criança. De entre todos os sentidos, a escuta é sem dúvida o sentido que mais tenho desenvolvido, sendo essa sensibilidade do som difícil de controlar, uma vez que vivemos num mundo que parece ter ‘enterrado’ o silêncio a favor de um constante bombardeamento acústico.
Quando eu era mais novo, a minha mãe brincava comigo porque eu conseguia ouvir tudo, inclusive quando ela falava com as suas amigas no apartamento do lado ou quando eu estava do outro lado do pátio e era praticamente impossível ouvir o que ela estava a dizer. Mas eu não fazia isso de propósito, nunca gostei de ouvir as conversas dos outros, simplesmente era algo impossível de evitar. Posso ouvir sons, ruídos, palavras, passos e música, mesmo num volume que seja imperceptível para o restante do mundo. E isso é um problema porque a minha concentração é afetada consideravelmente e o meu nível de ansiedade é sempre muito alto.
Além de tudo, deixa-me exausto. É como estar permanentemente numa rua em hora de ponta com as pessoas aos gritos, as buzinas dos carros sempre a tocar, carros que fazem muito barulho, martelos pneumáticos a trabalhar, sirenes da polícia, a chiadeira dos travões; tudo isso num reboliço que aos poucos me deixa sufocado e faz a minha cabeça girar. É por isso que tenho sempre que trabalhar com fones nos ouvidos com redução de ruído para poder me concentrar. É por isso que constantemente necessito de uma espécie de som ambiente quando não estou a usar os fones, para me isolar do resto mundo e concentrar-me no que estou a fazer.
Sei que isso pode parecer uma reclamação excessiva, já que muitas pessoas também não gostam de barulho. No entanto, aqui estamos nós a falar sobre uma característica do autismo que, quando presente, pode ter graves consequências nas diversas áreas da vida como nas relações sociais, na escola e no trabalho. Não se trata simplesmente de pequenos inconvenientes, mas sim de uma hipersensibilidade que, se não controlada, pode levar facilmente a uma sobrecarga sensorial.
Um estudo de 2012 aponta que metade das pessoas com autismo adotam comportamentos de escape devido à hipersensibilidade aos sons e ruídos, duplicando o risco de sofrer acidentes quando comparado com a população em geral [1], sendo que às vezes o estímulo auditivo pode chegar ao nível tão insuportável que podem de repente começar a correr, com intenção de se afastar o mais rápido possível destes ruídos. Assim, há o risco de atravessar a rua sem olhar para os lados, querer ficar debaixo de um monte de almofadas, ou adotar um comportamento insuportável ao ouvir o som do despertador, deixando as pessoas ao redor com a impressão de que se está louco.
Não é fácil controlar isto tudo. Um exemplo disso é quando estamos a trabalhar num espaço aberto, escritório ou até mesmo num corredor amplo, onde os nossos colegas estão a falar ao telefone e a conversar entre si. Não é fácil porque, antes de nos darmos conta, percebemos que estamos tensos, nervosos, a ponto de explodir. Muitas vezes é particularmente difícil controlar isso porque as outras pessoas não distinguem/compreendem quais das nossas reações são involuntárias e naturais, sendo difícil elas acreditarem em nós. De repente acabamos por nos tornar o colega que dá desculpas inacreditáveis para não trabalhar ou sair mais cedo. Tornamo-nos no colega agitado que quer fazer uma tempestade num copo d’água.
Estratégias práticas para valorização das competências
Partilhei a minha experiência pessoal em relação à hipersensibilidade auditiva, mas este caso também é válido para qualquer diferença na percepção e processamento dos estímulos sensoriais, seja na comunicação ou socialização que caracterizam diversas pessoas no espectro autista. Agora, gostaria de explorar algumas medidas práticas a serem adotadas pelas empresas para criar um ambiente de trabalho inclusivo e acessível para que as pessoas autistas se destaquem e valorizem suas capacidades, destacando a importância de uma perspectiva baseada na reciprocidade do processo de inclusão.
Em primeiro lugar, é fundamental compreender que o autismo não é um ‘defeito’ a ser corrigido, senão uma forma diferente de perceber e interagir com o mundo envolvente, minimizando as dificuldades das diferenças de interação com um mundo maioritariamente neurotípico. No entanto, ao invés de ‘normalizar’ as pessoas autistas, é fundamental focar na valorização da diversidade e promover uma inclusão em todas as suas formas.
Um primeiro passo a ser dado pode ser a capacitação pessoal. Os funcionários podem ser informados sobre o autismo e se sensibilizar a respeito das necessidades específicas das pessoas neurodivergentes; incluindo sessões de formação sobre a importância do modelo social da deficiência e o conceito da neurodiversidade, além das estratégias de comunicação efetivas e adaptação do ambiente de trabalho para reduzir os principais fatores de stress, maximizando o bem-estar e o desempenho dos funcionários autistas.
Além disso, as empresas podem considerar a adoção de políticas flexíveis para satisfazer as necessidades individuais dos funcionários dentro do espectro. Isto implicaria proporcionar opções como o trabalho remoto ou o trabalho híbrido, além de horários flexíveis, permitindo que os funcionários alteram a iluminação ou acústica do seu espaço de trabalho, oferecendo períodos de descanso regulares para minimizar a sobrecarga sensorial.
Deve-se também incentivar o uso de ferramentas de comunicação alternativas, como o correio ou chat eletrónico, para permitir que as pessoas se expressem da melhor maneira possível de acordo com suas preferências. Também é imprescindível explicar a importância de utilizar uma linguagem precisa e sem ambiguidades, com instruções claras, esquemáticas e objetivas. Vale, também, realçar que promover uma cultura de respeito e aceitação das diferenças contribui para a criação de um ambiente de trabalho positivo para todos, não só para os funcionários autistas.
Por fim, para superar as barreiras que impedem aproximadamente 80% das pessoas autistas de encontrar e manter um emprego, é fundamental que a inclusão não seja um processo unilateral, mas sim um diálogo recíproco que motive as pessoas autistas na empresa desde o começo. É com muita frequência que as iniciativas de inclusão correm o risco de serem concebidas de maneira vertical, com as pessoas autistas vistas como beneficiárias passivas de um processo paternalista, apesar das boas intenções. Para criar um ambiente inclusivo e autêntico, é essencial que as vozes das pessoas autistas sejam ouvidas e que elas façam parte do processo de decisão. Isto implica inseri-las no processo de implementação de projetos de inclusão desde as etapas iniciais, reconhecendo que suas experiências e perspectivas são fundamentais para o sucesso destas iniciativas. Só através de uma abordagem baseada na reciprocidade e participação ativa de todas as partes interessadas é que podemos construir um mundo laboral e uma sociedade genuinamente inclusivos, propiciando benefícios para todos e todas.
