Fabrizio Acanfora
Num artigo anterior, a minha colega Michelle Passaro escreveu sobre design acessível e abordou as decisões visuais, estruturais e linguísticas que tornam um conteúdo navegável e legível para toda a gente. O seu texto é prático, generoso e muito ligado ao trabalho do dia a dia.
Este artigo retoma algumas dessas ideias e acrescenta outras novas. Porque, antes de desenhar um documento, antes de escolher tipografias ou aplicar estilos aos títulos, alguém tem de decidir o que quer dizer, como o quer dizer e quem imagina do outro lado a ler. E é aí que a acessibilidade começa a construir-se… ou onde falha silenciosamente.
Trabalho muito com linguagem, e uma das coisas que aprendi é que muitas barreiras de acessibilidade não são visuais. Podem ser cognitivas, linguísticas ou culturais, e costumam esconder-se nos pressupostos que fazemos sobre quem é o nosso leitor, que conhecimentos tomamos como garantidos ou quanto esforço esperamos que invista para compreender a nossa mensagem.
Muita gente acredita que criar conteúdo acessível consiste em simplificar as coisas, mas não é assim. Trata-se de torná-las claras. E essa diferença é muito mais importante do que a maioria imagina.
A clareza não é simplicidade
Existe uma ideia muito difundida de que escrever de forma acessível significa baixar o nível: usar palavras mais curtas, frases simples e evitar qualquer complexidade. A intenção por detrás disto costuma ser boa, mas também pode ser enganadora.
A clareza consiste em fazer com que quem lê não tenha de fazer um esforço extra para perceber aquilo que queremos dizer. A simplicidade, por outro lado, costuma implicar eliminar complexidade do próprio conteúdo. São operações diferentes, e confundi-las tem consequências.
Quando as organizações tentam tornar um conteúdo “acessível” eliminando todas as suas nuances, correm o risco de produzir algo condescendente. A mensagem implícita que o leitor recebe é: acreditamos que não consegues lidar com a versão completa.
O conteúdo acessível respeita quem lê e, ao mesmo tempo, assume a responsabilidade de tornar a experiência mais compreensível. Uma ideia complexa pode ser comunicada com clareza, e uma ideia simples pode ser mal comunicada. A diferença nem sempre está no conteúdo, mas no cuidado com que é escrito.
Quem é o teu leitor? A pergunta que quase ninguém faz
Todo o conteúdo é escrito a pensar num leitor imaginário. O problema é que, na maioria das vezes, esse leitor imaginário se parece muito com quem escreve.
A comunicação corporativa costuma assumir um leitor neurotípico, sem dificuldades de leitura, que partilha as referências culturais e profissionais do autor, dispõe de tempo e atenção ilimitados e, além disso, lê na sua língua materna. É um perfil muito específico e, na maioria dos contextos reais, bastante minoritário.
O conteúdo acessível começa com uma pergunta diferente. Em vez de perguntarmos “como quero dizer isto?”, podemos perguntar: “o que precisa o leitor para o compreender?”.
Essa mudança de perspetiva transforma tudo. Muda o comprimento das frases, porque percebemos que uma frase com quarenta palavras e duas subordinadas exige uma memória de trabalho que nem toda a gente possui na mesma medida. Muda o vocabulário, porque percebemos que o jargão funciona como uma barreira de entrada. E muda a estrutura, porque compreendemos que uma pessoa com dislexia que usa um leitor de ecrã, alguém com PHDA ou uma pessoa que lê na sua segunda língua navegam o conteúdo de forma muito diferente daquela como o fazemos quando revemos o nosso próprio texto.
O jargão é uma estrutura de poder
Quero dizer algo de forma muito clara, embora raramente apareça nos guias de acessibilidade: o jargão não só dificulta a leitura de um texto, como também classifica as pessoas.
Todas as áreas profissionais desenvolvem a sua própria linguagem, e essa linguagem cumpre duas funções ao mesmo tempo: traz precisão a quem faz parte do grupo e, simultaneamente, assinala pertença. Quando um conteúdo está saturado de termos internos, transmite experiência, sim, mas também exclusão.
No mundo corporativo, a densidade de jargão costuma ser inversamente proporcional à clareza da mensagem. Frases como “estamos a potenciar sinergias para otimizar o engagement dos stakeholders em diferentes áreas de negócio” geralmente significam muito pouco quando traduzidas para linguagem normal. Muitas vezes existe mais complexidade na encenação do que na própria ideia.
O conteúdo acessível não elimina a linguagem técnica, mas contextualiza-a: explica os termos quando aparecem pela primeira vez e oferece informação suficiente à volta para que alguém que não conhece essa terminologia consiga acompanhar o raciocínio. E isto não deveria ser visto como uma concessão a leitores “menos capazes”, mas como um gesto básico de competência comunicativa.
A carga cognitiva existe, e não é igual para toda a gente
Um dos conceitos mais importantes para quem cria conteúdo é o da carga cognitiva: a quantidade de esforço mental necessária para processar informação.
A carga cognitiva não é algo fixo. Varia de pessoa para pessoa, de momento para momento, e é condicionada por fatores que quem escreve conteúdo raramente tem em conta. Uma pessoa neurodivergente pode processar a informação seguindo padrões diferentes daqueles que o texto pressupõe. Uma pessoa autista pode achar instruções ambíguas muito mais desgastantes do que uma pessoa neurotípica, e alguém com dislexia dedica um esforço adicional — mensurável — a cada linha de texto mal estruturada.
Quando um conteúdo é escrito sem atenção à carga cognitiva, não se torna apenas mais difícil de seguir: torna-se excludente. A pessoa que não consegue sustentar esse esforço abandona a leitura, não por falta de capacidade para compreender, mas porque o conteúdo lhe exigia mais do que o necessário.
Reduzir a carga cognitiva consiste em eliminar fricções desnecessárias. Cada pronome ambíguo, cada parágrafo que esconde a sua ideia principal até à quarta frase, cada inconsistência terminológica obriga o leitor a fazer um trabalho que deveria ter sido feito por quem escreveu o texto.
A estrutura é o pensamento tornado visível
No seu artigo, Michelle aborda a dimensão técnica da estrutura: os estilos de título, a ordem de leitura, a hierarquia lógica… e tudo isso é extremamente importante. O que eu quero acrescentar é uma dimensão anterior: compreender a estrutura também como uma prática intelectual, e não apenas como uma questão de formato.
Tendemos a pensar que um documento bem estruturado é o resultado de aplicar estilos e títulos depois do texto estar terminado. Mas, na realidade, é o resultado de se ter pensado com clareza antes de escrever. Se não consegues organizar as tuas ideias de uma forma que o leitor consiga seguir, o problema não está no formato, mas no próprio pensamento.
E digo isto sem qualquer juízo de valor. Pensar de forma confusa não é um defeito pessoal; é, aliás, o estado natural de qualquer primeiro rascunho. A questão é que a estrutura não é uma camada cosmética acrescentada no fim: é a arquitetura de um argumento ou de uma mensagem, e precisa de ser sólida antes de levantar as paredes.
Na prática, isto implica fazer algumas perguntas antes de começar a escrever. Por exemplo:
· Qual é a ideia mais importante que o leitor deve reter?
· O que precisa de saber primeiro para conseguir compreender o que vem a seguir?
· O que pode ser eliminado sem perder o significado essencial?
Estas perguntas não têm a ver com acessibilidade num sentido restrito, mas com comunicação. E, na maioria dos casos, um conteúdo acessível e um conteúdo bem comunicado são exatamente a mesma coisa.
O mito do leitor médio
Por vezes fala-se de acessibilidade como se consistisse em desenhar para casos extremos, em fazer adaptações para utilizadores que não são “típicos”. Mas essa abordagem parte de uma ideia errada.
Não existe um leitor típico, tal como não existe um utilizador médio. O que existe são pessoas, cada uma com uma combinação diferente de características, experiências e contextos a partir dos quais lê e interpreta um texto. O estudante com dislexia, a trabalhadora cuja primeira língua não é o inglês ou o colega autista a tentar decifrar um email ambíguo não são casos excecionais: fazem parte da tua audiência.
Quando um conteúdo funciona para uma ampla variedade de perfis cognitivos, linguísticos e situacionais, funciona melhor para toda a gente. As legendas ajudam quem está em ambientes ruidosos, a linguagem clara permite até aos especialistas ler e localizar informação mais rapidamente, e uma estrutura lógica beneficia tanto as pessoas impacientes como quem utiliza leitores de ecrã.
O tom e o registo importam mais do que parece
As conversas sobre acessibilidade costumam centrar-se na estrutura e no vocabulário, enquanto o tom recebe muito menos atenção. No entanto, molda a experiência de leitura com a mesma intensidade.
O tom institucional tende a ser formal, distante e impessoal, e isso cria um tipo muito específico de barreira. Transmite autoridade, sim, mas também deixa transparecer que o texto não foi escrito a pensar em ti, mas em proteger a instituição. Os avisos legais, os comunicados corporativos, as políticas internas ou os materiais de onboarding costumam privilegiar o conforto da organização acima da compreensão de quem lê.
Um tom acessível é um tom humano. Não necessariamente informal, mas consciente de que existe uma pessoa do outro lado. Usa o “tu”, o “nós” quando faz sentido e evita a voz passiva, porque muitas vezes serve para esconder quem é responsável por quê. “Foram cometidos erros” é uma aula magistral sobre como usar a gramática para evitar responsabilidades. “Enganámo-nos”, por outro lado, é acessível… e também honesto.
O tom é também um dos lugares onde muitas pessoas neurodivergentes encontram barreiras mais invisíveis. A ambiguidade, a ironia, os duplos sentidos ou as expectativas implícitas aumentam a carga cognitiva. Isso não significa que os textos devam ser frios, robóticos ou sem humor. Significa simplesmente que, quando a precisão importa — como acontece em instruções, políticas ou comunicações importantes —, é melhor dizer exatamente aquilo que se quer dizer. O leitor não deveria ter de adivinhar.
Como é realmente um conteúdo acessível
Um conteúdo acessível reconhece-se porque é escrito com atenção e cuidado.
- Começa pela informação mais importante, porque talvez quem lê não chegue ao fim.
- Utiliza terminologia coerente, porque mudar de termo para se referir ao mesmo conceito obriga o leitor a perguntar-se se se está a falar de algo diferente.
- Divide processos longos em passos, porque os passos são mais fáceis de seguir.
- Usa exemplos, porque a abstração sem algo concreto a que nos possamos agarrar acaba por deixar pessoas para trás.
- Diz exatamente aquilo que quer dizer, sem confiar que o leitor preencherá as lacunas por conta própria.
- Não precisa de anunciar-se como “acessível” nem de se felicitar por isso. Simplesmente funciona.
E esse é, precisamente como assinalava Michelle, o verdadeiro objetivo.
Uma lista prática para quem cria conteúdo
Estas são algumas das perguntas que faço a mim mesmo antes de partilhar qualquer texto. Não são exaustivas, claro, mas costumam ajudar-me a identificar a maioria dos problemas que encontro no meu trabalho.
· A ideia principal fica clara nas primeiras frases?
· Alguém sem conhecimentos prévios sobre o tema conseguiria acompanhar o raciocínio?
· Expliquei os termos técnicos e as siglas na primeira vez que aparecem?
· Cada frase desenvolve apenas uma ideia ou estou a acumular demasiadas coisas em construções longas?
· A estrutura do documento é visível e lógica?
· Fui coerente com a terminologia ao longo de todo o texto?
· Disse realmente aquilo que queria dizer ou deixei coisas subentendidas?
· O tom foi pensado para quem lê ou para a instituição?
Se a resposta a alguma destas perguntas não for clara, o conteúdo ainda não está pronto.
O verdadeiro padrão
A acessibilidade nos conteúdos é uma prática, um compromisso quotidiano com a ideia de que comunicar envolve sempre mais do que uma pessoa.
O trabalho de quem escreve consiste em tornar uma ideia acessível a outra pessoa. Se o leitor não consegue chegar ao significado, a comunicação falhou, por mais elegante ou tecnicamente correto que o texto seja.
Isso é — ou deveria ser — a base de qualquer comunicação profissional. O facto de precisarmos de lhe chamar “acessibilidade” diz bastante sobre quão baixos têm sido os nossos padrões na forma como escrevemos uns para os outros.
O conteúdo acessível não é uma categoria especial. É simplesmente conteúdo que cumpre aquilo para que existe: chegar às pessoas, fazer sentido e respeitar suficientemente o leitor ao ponto de assumir o esforço de se expressar com clareza.
E isso não é uma preocupação de nicho. É, na verdade, a própria essência da escrita.
