Francesc Sistach, CEO Specialisterne
O ano de 2025 não podia deixar indiferente uma organização dedicada a “Transformar a sociedade criando ambientes de trabalho inclusivos que impulsionam pessoas neurodivergentes”, tal como afirma o nosso propósito, precisamente revisto este ano.
A Specialisterne é um excelente observatório para analisar como o mercado muda, a sociedade evolui e novas tendências surgem no horizonte da diversidade e do mundo empresarial em geral.
Este ano, a Inteligência Artificial (IA) tornou-se omnipresente, desafiando em especial a importante atividade da Specialisterne no setor tecnológico, onde tradicionalmente se integraram muito bem, por exemplo, pessoas autistas. Muitas destas pessoas iniciam a sua carreira profissional e a IA elimina determinadas tarefas que eram um bom enquadramento para profissionais júnior. Ao mesmo tempo, a IA cria outras tarefas que, novamente, podem ser um bom enquadramento para essas mesmas pessoas. Como termina este balanço? Fico com o mais recente relatório da Universidade de Yale, simplesmente porque é mais otimista do que muitos outros que circulam por aí, deixando uma sensação de inquietação em qualquer pessoa jovem — seja ou não neurodivergente.
Em todo o caso, na nossa atividade de formação técnica e socioprofissional muito relevante, que desenvolvemos em vários países, já estamos a integrar temas relacionados com a Inteligência Artificial. Este trabalho começou na academia nos Estados Unidos, com o apoio da Hg Foundation. Paralelamente, a nossa equipa em Itália está já a trabalhar na integração de ferramentas avançadas de IA na nova plataforma de formação destinada a pessoas neurodivergentes.
Outro tema que centrou a nossa atenção em 2025 foi a cibersegurança. Na Dinamarca estamos a formar mais profissionais nesta área, tal como em Itália o fazemos com certificações da Cisco ou da Salesforce. Mas também nos aventuramos a estudar qual poderá ser o nosso papel no setor mais alargado da defesa. A nossa equipa nos EUA liderou este estudo com orgulho, enquanto parte da nossa equipa noutros países — especialmente no Sul da Europa — se mostrou inquieta com a simples ideia de operar neste setor. Este estudo voltou a evidenciar como, numa organização que opera a nível global, a diversidade cultural desempenha um papel fundamental. Vemo-lo continuamente quando realizamos projetos globais para grandes empresas.
Tão importante como formar pessoas neurodivergentes para que estejam mais preparadas é formar as empresas para que compreendam a neurodiversidade e se preparem para ela. É uma das formas de entender a “reciprocidade”. Neste âmbito, as equipas do Canadá e de Espanha, com o apoio da ACCIÓ (Agência Pública Catalã de apoio ao tecido empresarial), estão a trabalhar intensamente para disponibilizar muito mais material em mais idiomas do que os existentes atualmente e numa plataforma de e-learning renovada. Com novas gerações que cada vez mais se identificam como neurodivergentes (mais de 50% da Geração Z!), as empresas que não forem neuroinclusivas correm o risco, a longo prazo, de perder muito talento. Formar-se sobre este tema pode ser um excelente primeiro passo.
Mas na Specialisterne fazemos muito mais do que formar. Através de diversos programas e abordagens em todo o mundo, conseguimos que muitas pessoas neurodivergentes iniciem uma carreira profissional ou encontrem um melhor local de trabalho. Após 21 anos, contamos-las aos milhares. E não apenas no setor tecnológico. Projetos como o da Casa Batlló, em Espanha, onde 75 pessoas autistas e outras pessoas neurodivergentes recebem quase dois milhões de visitantes por ano neste museu de renome, são prova disso. O prémio que a Casa Batlló recebeu este ano demonstra como a sociedade valoriza cada vez mais o que fazemos. Mostra também como cada empresa que inicia o caminho da neurodiversidade ajuda simultaneamente a mudar a perceção da sociedade sobre a neurodiversidade e a somar mais empresas a um movimento global a seu favor.
Quando as pessoas neurodivergentes já estão a trabalhar, um apoio típico — tanto para elas como para o resto da equipa — é o coaching. Em 2025 continuamos a observar uma tendência muito clara de aposta das empresas nesta abordagem. O nosso escritório no Brasil lidera este crescimento, com mais de 400 pessoas acompanhadas em 2025, num total de mais de 1.000 pessoas em todo o mundo apenas neste ano. As empresas mais avançadas neste campo começaram a promover programas de coaching disponíveis de forma aberta e transparente para toda a sua força de trabalho, para pessoas autistas e neurodivergentes em geral, bem como para os seus managers e colegas de equipa. Na Specialisterne, dedicamos esforços significativos na evolução da nossa metodologia, de modo a oferecer programas de apoio no local de trabalho melhores e verdadeiramente globais.
Enquanto organização, e apesar do impacto social que geramos em 2025 — que esperamos reportar dentro de poucas semanas, graças ao esforço da equipa do Canadá, onde temos o nosso centro de medição de impacto social —, na Specialisterne estamos sujeitos às mesmas limitações que qualquer outra organização. Temos de gerar impacto social, mas de forma economicamente sustentável. E isso nem sempre é simples. Em 2025 assistimos ao encerramento do nosso franchisado em França e decidimos também encerrar o nosso escritório na Austrália. Pelo lado positivo, e como exemplo, há poucas semanas realizámos o primeiro evento para empresas do nosso novo escritório em Portugal. E, entre outros avanços, continuamos a trabalhar em planos para ampliar o nosso impacto na América Latina a partir do nosso escritório no México, em como operar em novos setores do mundo empresarial em Espanha e na abertura do nosso terceiro escritório na Dinamarca, país onde a Specialisterne nasceu. No Brasil, celebrámos o nosso 10.º aniversário com grande entusiasmo e muitos novos projetos para 2026.
A um nível mais pessoal, muitas pessoas juntaram-se à Specialisterne nestes últimos 12 meses e outras seguiram outros caminhos. Como bem dizia Thorkil Sonne, fundador da Specialisterne, “a missão permanece” e tende a ficar ligada a todas as pessoas que passam por esta organização para o resto das suas vidas. Ainda assim, quero agradecer a toda a equipa da Specialisterne o seu esforço em 2025 e, em especial, saudar aqueles que iniciam novos caminhos fora da organização. O impacto social que geramos em todo o mundo nunca se perde, apenas se acumula. E quem segue novos percursos continuará sempre a fazer parte de um movimento global a favor da neurodiversidade.
O que nos reserva 2026? Certamente mais formação técnica e socioprofissional, especialmente em temas avançados como a IA. Veremos muito mais empresas a apostar na formação das suas equipas em neurodiversidade, a oferecer apoio no local de trabalho e a toda a sua força de trabalho e oportunidades profissionais a profissionais neurodivergentes. Esperamos também ver mais organizações a trabalhar num roadmap de vários anos e na forma de o financiar através de programas internos já existentes, para que, num futuro não muito distante, possam dizer com orgulho que são empresas neuroinclusivas ou, pelo menos, que iniciaram esse caminho, contratando pessoas neurodivergentes e começando a compreender quais os passos seguintes. Na Specialisterne estaremos sempre ao seu lado, em qualquer parte do mundo, para apoiar esse percurso da forma que desejarem. Muito já foi conquistado em prol da neurodiversidade, mas ainda há muito por fazer.
Feliz e neuroinclusivo 2026!
